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sábado, 3 de dezembro de 2016

Tragédia da Chape: escala em Bogotá custaria R$ 10 mil e uma hora extra Reportagem revela o quanto representaria uma parada na capital colombiana para reabastecer, evitando com que o avião chegasse sem combustível a Medellín

Por Medellín, Colômbia
A empresa LaMia, responsável pelo voo que levava a Chapecoense e que se acidentou em Medellín matando 71 pessoas, teria um custo adicional de cerca de R$ 10 mil se decidisse por parar no Aeroporto de Bogotá para realizar um abastecimento, segundo especialista consultado pela "Folha de S.Paulo". O valor inclui combustível e taxas aeroportuárias. O avião era pilotado pelo boliviano Miguel Quiroga, dono da LaMia.
A parada se fazia necessária por conta da distância entre os pontos de origem do voo (Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia) e chegada (Medellín, na Colômbia). A distância entre essas cidades é de cerca de 3.000km, exatamente a autonomia de voo do modelo BAe Avro RJ85 – ou seja, o avião não tinha margem de reserva para esse trajeto.
Avião Chapecoense Lamia (Foto: Reprodução/Twitter)Aeronave da Lamia que levava a delegação da Chapecoense até Medellín, na Colômbia (Foto: Reprodução/Twitter)

Segundo Bruno Fernando Goytia Gómez, filho do copiloto Ovar Goytia, que faleceu no acidente,a companhia aérea desistiu de parar em Cobija, no norte da Bolívia, por conta do atraso no voo comercial que partiu de São Paulo. Além disso,o aeroporto de Cobija fica fechado durante a noite.
Se fosse um piloto contratado [funcionário da empresa], ele pensaria na própria vida e pararia no primeiro aeroporto que visse [se soubesse que estava com pouco combustível]
Josmeyr Oliveira, advogado especializado em causas aeronáuticas, em entrevista à Folha
A parada em Bogotá, que fica 300km ao sul de Medellín, seria a alternativa e atrasaria a chegada da delegação ao local da partida em apenas uma hora, segundo projeção do coronel Douglas Machado, especialista em investigações de acidentes aéreos. 
– Na tentativa de agradar o cliente [o clube de futebol] provavelmente o piloto optou por chegar rápido ao destino, mas a partir de um risco desnecessário – disse Machado, em entrevista à Folha.
Pilotos brasileiros ouvidos pelo jornal criticam o fato de o comandante ser também o sócio da empresa LaMia, o que pode causar conflito de interesse entre o cuidado com a segurança e custos. 
– Se fosse um piloto contratado [funcionário da empresa], ele pensaria na própria vida e pararia no primeiro aeroporto que visse [se soubesse que estava com pouco combustível] – disse o advogado especializado em causas aeronáuticas Josmeyr Oliveira. 
Na única vez em que a LaMia teve um voo de Santa Cruz de La Sierra a Medellín, em agosto, houve uma parada para abastecer em Cobija.
Quatro voos no limite
Levantamento feito pelo Diário Catarinense com base em todos os voos da Lamia mostra que a companhia havia feito antes outros quatro voos com mais de 4h22min (tempo de autonomia do avião britânico Avro RJ85) sem escalas, sendo três deles entre Medellín e Santa Cruz de la Sierra (trajeto inverso ao feito pela Chape).
A TV Globo teve acesso ao plano de voo do avião da LaMia que caiu com a delegação da Chapecoense, na madrugada de terça-feira, e a um documento com um relato de uma funcionária da da Aasana, a agência nacional de aviação da Bolívia. Segundo os documentos, Celia Castedo Monasterio questionou o piloto Miguel Quiroga sobre a autonomia do avião para o trajeto. Ela alertou que a capacidade de armazenamento de combustível da aeronave não era adequada para o plano de voo determinando e que faltava um plano alternativo, pois a quantidade de combustível seria insuficiente em caso de emergência.
A principal observação da funcionária teria sido com o tempo de voo entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín. Celia alertou a um despachante da companhia que a duração era igual à autonomia de combustível da aeronave. Segundo os documentos aos quais o jornal teve acesso, o tempo de rota era de 4h22min, assim como a autonomia. Em resposta, o despachante disse ter conversado com o piloto, que insistiu na realização do voo, afirmando que a autonomia era suficiente e que faria a viagem em menos tempo
– Não, senhora Celia, essa autonomia me passaram, é suficiente. Assim, não apresento mais nada. Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe. É assim, fique tranquila, está bem
A funcionária da Aasana não tinha autoridade para impedir a realização do voo. Esta responsabilidade cabia à Departamento de Aviação Civil da Colômbia. A agência ainda não se manifestou sobre o caso. Celia Castedo foi afastada de suas funções nesta quinta-feira.
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